“Enquanto o Brasil não mudar a forma de encarar a região, não haverá uma visão de futuro que sirva”

Foto: Jimmy Geber / Revista PIM Amazônia

Por Juarez Filho

Denis Benchimol Minev é diretor-presidente da Bemol e co-fundador e conselheiro da Fundação Amazonas Sustentável. Em 2012 foi selecionado Young Global Leader do Fórum Econômico Mundial. Denis serviu como Secretário de Planejamento e Desenvolvimento Econômico do Amazonas e como analista financeiro do Banco Goldman Sachs.  É formado em economia pela Stanford University, tem mestrado em Estudos Latino-Americanos também pela Stanford University e MBA pela Wharton School. Confira nesta entrevista exclusiva concedida à PIM Amazônia sua opinião sobre temas que vão de práticas ESG ao futuro da Amazônia.

Cada vez mais, pautas relacionadas às práticas ESG (termo em inglês que traduz a governança ambiental, social e corporativa) estão ocupando a agenda do setor privado. O que a Bemol tem feito neste sentido?

Temos nossa estratégia ESG que inclui itens de relevância para nosso negócio.  É importante frisar que esta não é uma pauta de filantropia, e sim de estratégia empresarial voltada a gerar benefícios para a empresa e para a sociedade em geral. No nosso caso, temos itens como conectividade (com wi-fi e internet para clientes e colaboradores), energia (desde o uso de energia solar à venda de produtos como bicicletas elétricas), diversidade e inclusão (principalmente de indígenas e refugiados), tratamento adequado de resíduos nossos e de clientes, proteção de dados de clientes, dentre outras pautas.  Temos 12 focos.  Nossa meta é nos tornarmos uma Empresa B em 2023, um tipo de certificação ESG. 

Com a grande evolução do comércio eletrônico provocado pela pandemia de covid-19, houveram algumas mudanças no comportamento dos consumidores brasileiros. O varejo da região amazônica sofreu algum impacto com estas mudanças?

As mudanças foram profundas. Fomos de 3% das vendas online para 20%, e continuam em franco crescimento. Além disso, outros segmentos iniciaram a digitalização, como varejo de alimentos. O cliente está mais empoderado e exigente.  Há menor tolerância para erros e demoras. O cliente também exige hoje das empresas pautas ESG, item de menor relevância no passado.

Em sua opinião o que ainda vai mudar no varejo e como enxerga esse segmento daqui cinco ou dez anos?

O varejo tende a se tornar cada vez mais competitivo, com grandes empresas globais ganhando cada vez maior escala e produtividade.  Será preciso ganhar produtividade em todas as frentes enquanto mantemos a qualidade do atendimento e os vínculos de confiança. Dentro de dez anos, as margens serão menores, a qualidade de atendimento e entrega será melhor, e a utilização de dados será profunda. 

Os varejistas locais tem uma vantagem permanente no item conveniência, com lojas acessíveis e possível entrega rápida, mas grandes empresas como Mercado Livre, Amazon, Shein, Shopee e outras tem se mostrado muito inovadoras e competitivas em preços e serviços também.

“As bordas da floresta são a maior (mas não a única) oportunidade da Amazônia no momento”, destaca Minev.

O Brasil possui um dos maiores ativos ambientais e socioeconômicos do mundo, a Amazônia, e ainda não conseguiu perceber isso. O que poderia ser feito pelos amazônidas para dar luz aos brasileiros e mostrar o verdadeiro potencial que a região amazônica tem de impulsionar o País no caminho do desenvolvimento? 

O Brasil vê a Amazônia como um problema.  Como problema, o Brasil insiste em debater ideias para resolver o problema.  Essa forma de encarar a Amazônia está errada.  A Amazônia é talvez o maior patrimônio do Brasil e a maior oportunidade.  Enquanto o Brasil não mudar a forma de encarar a região, não haverá uma visão de futuro que sirva. 

O primeiro passo creio é criar os vínculos de empatia e conhecimento dos dois lados.  Precisamos compreender melhor o motivo que leva o restante do Brasil a encarar a Amazônia assim. A partir deste conhecimento, conseguiremos construir uma visão de futuro que entusiasme a nação. Há inúmeras oportunidades na região, até porque há inúmeras amazônias diferentes que precisam de desenvolvimentos diferenciados.  O que se aplica à ilha de Marajó não se aplicará ao Acre nem a São Gabriel da Cachoeira.

A Amazônia Legal possui hoje uma área já desmatada de mais de 70 milhões de hectares, que estão abandonados ou subaproveitados. O que poderia ser feito nestes locais com o objetivo de reverter essa situação?

As bordas da floresta são a maior (mas não a única) oportunidade da Amazônia no momento.  Em cada local haverá uma destinação e solução diferentes. Nas áreas desmatadas no arco sul da Amazônia serão atividades diferentes daquelas nos arredores de pequenos municípios do Amazonas. Mas a oportunidade está posta, se dermos grande produtividade a este território, seremos prósperos.  

Poderia explicar melhor o que são as “bordas de floresta” e por que elas são a maior oportunidade da Amazônia no momento?

Bordas da floresta são áreas já desmatadas ou degradadas. Elas ocorrem na Amazônia inteira, seja nos arredores de pequenos e grande municípios, seja nas fronteiras de maior desmatamento.

Qual é a vocação econômica da Amazônia?

Não há uma vocação somente para uma região da magnitude e da diversidade da Amazônia. Há linhas mestras de aproveitamento que podem se aplicar amplamente. Uma é a utilização das bordas, como mencionado anteriormente. Outra é a utilização da biodiversidade com ciência para encontrar soluções aos mais diversos problemas da humanidade, da alimentação aos cosméticos, aos fármacos e outros segmentos. 

Há também oportunidades do carbono ao turismo. Deveríamos sim ser os maiores produtores de madeira, de proteínas, de alimentos do mundo. A abundância de água, a temperatura e a biodiversidade quase inacreditável nos posicionam para este destino. 

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